DIFUSÃO DE TENDÊNCIAS NA MODA ARISTOCRÁTICA: EFEITO TRICKLE-DOWN

2.5.25 |


Quando a moda se estabeleceu no início da Idade Moderna encontrou uma nova classe social emergente -burguesia- que ansiava por desfrutar do luxo das cortes e, principalmente através da imitação do vestuário, ostentar sua condição financeira na tentativa de demonstrar igualdade social. A moda nascida nas cortes e copiadas pela burguesia, deu origem a um modelo de difusão conhecido como "trickle down effect". Este é o tema deste artigo que vai falar ainda sobre como estas tendências eram divulgadas na Moda Aristocrática nos séc. XVII e XVIII. Vamos lá?
 

*Conteúdo escrito por humano


A Moda Aristocrática

 

Lipovetsky (1987) denomina "Moda Aristocrática" o período entre o início do sistema da moda – final da Idade Média – até a segunda metade do século XIX.

 

A moda surgiu no Ocidente, nas cortes de Borgonha ou da Itália nos séculos XIV ou XV, durante o período chamado de "Primeira Modernidade", isto é, durante a Renascença. É o período de transição entre a Idade Média e a Idade Moderna.

 

Este período marca o nascimento de uma nova classe social – burguesia- que enriqueceu com as atividades comerciais, não considerando a riqueza como a posse da terra, base do sistema feudal, mas media a riqueza pelo acúmulo de capital.


Os burgueses assumem seu potencial financeiro expressando seu poder econômico através de vestimentas, acessórios luxuosos, e o padrão adotado nas residências dos aristocratas, como forma de não reconhecer a superioridade deles e sim, se igualar.

 

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Giovanni Guglielmo e Ana Luísa de Medici- 1708 Burgueses de Florença. Via | Wikipédia

A moda nasce então de uma competição entre a burguesia e a aristocracia, baseada no princípio da imitação. Quando as classes superiores adotavam um novo estilo este era copiado pelas classes inferiores, levando as classes superiores a adotar um novo estilo para se diferenciar; e era novamente copiado em um movimento constante. O início da moda, portanto está associado às elites e a grande maioria da população, no início, não foi afetada por estas mudanças.


"A moda nasceu nas cidades economicamente ricas, onde os comerciantes e os banqueiros rivalizavam com os consumos da nobreza." (Baldini, 2005, p. 36)

 

Se no início a moda ficou concentrada nas elites, no século XVII o fenômeno da imitação alcança as classes mais baixas. No reinado de Luís XIV (1643-1715), a indústria da moda tornou-se a principal atividade econômica da França, com Jean-Baptiste Colbert, Inspetor Geral das Finanças declarando que "a moda é para a França o que as minas de ouro do Peru são para a Espanha". (Godart, 2010, p. 39).


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Luís XIV |Rei de França e Navarra |  Via: Meister Drucke.

O efeito "trickle down"

 

A "monarquia absoluta" de Luís XIV fez nascer uma centralização nas tendências das indumentárias na Europa. O que a corte de Versalhes usava sob a determinação do "Rei Sol", era inicialmente imitado pelos burgueses e por classes intermediárias, em um movimento decrescente conhecido como "trickle down effect" ou efeito gotejamento. É a moda que nasce nas classes superiores e desce progressivamente para as classes mais baixas, de forma vertical. 


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Moda Burguesa | Gravura de N. Guérard 1690 Via | Gallica

A imitação acontece como uma espécie de reverência em relação à pessoa que se imita, ou seja, do desejo de se afirmar como ela. Uma reflexão mais profunda está em Baldini (2005, p.65), ao citar um comentário de Gabriel Trade, escrito em 1890 e diz que "as classes ou pessoas que estamos mais inclinadas a imitar, são aquelas a que obedecemos mais facilmente." Acrescentando que "as massas tiveram sempre uma certa tendência para imitar o rei, a corte, as classes altas, na medida em que aceitavam seu domínio". Para ele, "em todas as épocas, as classes dominantes foram ou começaram por ser as classes-modelo". 

Foi o que ocorreu no reinado de Luís XIV, quando ele mesmo criou suas modas e divulgava para que o estilo da corte de Versalhes predominasse na França e na Europa, demonstrando que seu país era a maior potência naquele momento.


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Condessa de Mailly - 1698. Via: Wikimedia

A divulgação das tendências na Moda Aristocrática
 

Boneca Pandora

 

Uma forma criada para a difusão das tendências, dos estilos e modelos parisienses foram as bonecas Pandora. Estes pequenos manequins usando trajes detalhados e meticulosamente construídos eram feitos para os alfaiates copiarem os modelos;  mostravam as sedas estampadas, os bordados e os elaborados penteados em uso.


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Boneca Pandora. Via | Victoria & Albert Museum

 

Essas bonecas circulavam pela Europa desde o século XVII, alcançando o auge da popularidade no século XVIII. Eram confeccionadas por costureiras francesas que criavam os vestidos com requinte de perfeição nos detalhes e em seguida eram enviadas para a Inglaterra, Alemanha, Itália e Espanha difundindo o estilo francês.  

 

A maioria das bonecas Pandora possuía suas cabeças e corpos de madeira articulada, enquanto outras tinham membros de cera ou linho. Seus rostos eram pintados e as bonecas mais caras tinham olhos de vidro. Algumas tinham cabelos pintados ou perucas realistas feitas de linho ou lã. Divulgar penteados novos e detalhados era tão importante quanto exibir roupas novas.

 

Rose Bertin, estilista de Maria Antonieta, enviava bonecas Pandora de madeira para a Áustria para mostrar a moda francesa à família da rainha que era austríaca. Em sua boutique parisiense "Le Grand Mogul", Bertin exibia em suas grandes vitrines as Pandoras em tamanho real da rainha atraindo compradores e consolidando a imagem de Maria Antonieta como a maior referência de moda da Europa no século XVIII.


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Boneca Pandora. Via | Pinterest

Além de exposição de estilos de moda, as bonecas em tamanho real serviam também para um propósito prático. Roupas feitas para uma boneca em tamanho real podiam ser vestidas pela costureira e ajudar com o processo dos ajustes. Apesar de sua utilidade, as bonecas Pandora caíram em desuso nas últimas décadas do século XVIII.


 Imagens de Moda



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Imagem de Moda (Fashion Plates) Via | MFA Boston


As imagens de moda impressas desempenharam um importante papel durante o período barroco, na forma de gravuras individuais ou séries, e mais tarde nas primeiras revistas de moda. Luís XIV não só promoveu a fabricação de artigos de luxo, como também permitiu que fossem divulgados internacionalmente com gravuras das últimas tendências.



Com seu patrocínio, a imprensa de moda francesa floresceu entre 1672 e 1710. Centenas de imagens de moda foram impressas em formato semelhante ao de um retrato, feitas com tinta preta em papel branco e uma borda simples. Depois de impressas elas eram coloridas à mão e vendidas aos ricos por assinatura, em séries de conjuntos chamados "Chaiers de Mode" – Cadernos de Moda- servindo de inspiração para costureiras ("marchandes de mode"),  responsáveis pelos enfeites dos vestidos.

 

Revistas de moda 


<img src=mercure-galant-primeira-revista-de-moda-seculo-xvii.png" alt="Imagem de página da Mercure Galant primeira revista de moda seculo XVII"/>
"Mercure Galant". Via| Museu Nacional Suíço

Nesta época surgiram também as primeiras revistas de moda como "Mercure Galant" (lançadas em 1678) disseminando o estilo da corte para a classe média, por possuírem preços acessíveis e melhor qualidade de impressão. Tornam-se populares rapidamente e as costureiras já não precisariam esperar por longo tempo para conhecer as novidades da corte através das Pandoras ou dos "Chaiers de Mode", ambos de custo elevado.

 

A publicação do "Mercure Galant" era mensal e possuía páginas com ilustrações de moda, acompanhadas de um texto descritivo informando aos alfaiates, comerciantes e aos leitores as últimas tendências da moda na corte. As gravuras eram feitas com base em desenhos de Jean Bérain, estilista de Luís XIV a partir de 1674, responsável por definir seu estilo.

 

As cortesãs e a moda dos penteados
 

Não apenas os modelos de roupas determinavam o que era moda na corte francesa, os penteados também. E as responsáveis pelos lançamentos eram as "favoritas" do Rei. Luís XIV tinha várias amantes, mas tinha também a "especial" que desfrutava dos luxos da corte, frequentava os ambientes públicos, recebia títulos de nobreza e com isto, lançavam suas modas dos penteados que eram copiados.

 

Duas merecem destaque: Marie Angelique de Scoraille, Duquesa de Fontanges e Françoise d’Aubigné, Marquesa de Maintenon, que mais tarde se casaria secretamente com Luís XIV.


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Duquesa de Fontagnes. Criadora do penteado Fontanges. Via | Wikimedia

O penteado à la Fontange, com cachos finos adornados com rendas e fitas, foi criado por acaso. Uma versão bastante conhecida é que o penteado surgiu durante uma caçada em que Luís XIV estava acompanhado por Madame Fontange; quando seu penteado se desfez e ela tirou uma das suas jarreteiras (ligas que prendiam as meias) ornada com pedras preciosas, levantou os cabelos e prendeu com este "acessório". Agradou ao Rei e a moda foi lançada. No dia seguinte, todas as damas da corte exibiam cabelos amarrados com fitas com o laço para frente.


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Madame de Maintenon usando o penteado da moda século XVII  Via| Miester Druke

Da Marquesa de Maintenon surgiu outro penteado que levava seu nome: à la Maintenon. O penteado tinha os cabelos divididos ao meio por uma risca, levantados e dispostos em caracóis e foi moda por muito tempo no século XVII. 

Mas não foi somente na corte de Luís XIV que as cortesãs lançavam moda que se espalhavam pelas cidades da França e pela Europa. Seu sucessor Luís XV também possuía amantes se tornaram influentes na corte, lançando modas.

 

Duas ficaram famosas: Jeanne-Antoinette Poisson, Marquesa de Pompadour, uma das figuras mais emblemáticas do Século XVIII, e sua substituta Jeanne Gomard de Vaubernier, Condessa Du Barry, responsáveis for criar estilos marcantes que se tornaram moda.


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Madame de Pompadour 1759. Via | Wikimedia

 

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Condessa du Barry. Via | Wikimedia

A influência de Maria Antonieta como lançadora e divulgadora de tendências é conhecida de todos. A "Rainha da Moda" era adepta de um estilo extravagante, com volumes exagerados nas saias, graças ao uso dos panniers, mas se notabilizou por algumas bizarrices que foram imitadas.

 

Muitas modas de Maria Antonieta nasceram dos encontros com sua estilista Rose Bertin, entre elas, um enfeite de plumas colocados na parte de trás da cabeça chamado "Quès aco" e o "pouf" que foi usado pela primeira vez por Maria Antonieta na coroação do Rei Luís XVI e desencadeou uma onda de imitação entre as nobres francesas que começaram a usar os cabelos da mesma maneira. O penteado se tornaria popular em toda a Europa na década de 1770, mas também foi alvo de muitas críticas que ironizavam em caricaturas, as extravagâncias da rainha e suas seguidoras.


<img src=maria-antonieta-usando-penteado-pouf.png alt= Retrato de Maria Antonieta usando penteado pouf"/>
Maria Antonieta usando penteado "Pouf" 1775. Via | Wikipedia

<img src=princesa-charlotte-da-gra-bretanha-penteado-pouf.png" alt="Retrato da Princesa Charlotte da Grã-Bretanha usando penteado pouf"/>
Princesa Charlote da Grã-Bretanha usando penteado "Pouf". Via | Wikimedia


Assim nasciam e eram divulgadas as tendências seguindo o modelo  "trickle down effect". Neste artigo foi abordada a moda da corte francesa e as formas de difusão de suas tendências, por ser a protagonista dos lançamentos, que transformaram Paris na capital da moda como vemos hoje.

 

Luís XIV lançou outras modas durante seu longo reinado que eram produzidas com materiais exclusivamente fabricados na França. Foram criadas corporações de artesãos para atender as demandas, proibidas as importações de produtos de moda e facilitadas as exportações. Assim, a França consolidou sua posição de maior potência da Europa e Paris e Versalhes as capitais da moda.


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CRÉDITOA

Baldini, Massimo. A invenção da moda. 2005. Edições 70,Ltda.

Godart, Frédreric.  Sociologia da Moda. São Paulo: Editora Senac, 2010

Lipovetsky, Giles. O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1987




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