*Conteúdo escrito por humano
A Moda Aristocrática
Lipovetsky (1987) denomina "Moda
Aristocrática" o período entre o início do sistema da moda – final da
Idade Média – até a segunda metade do século XIX.
A moda surgiu no Ocidente, nas cortes de Borgonha
ou da Itália nos séculos XIV ou XV, durante o período chamado de "Primeira
Modernidade", isto é, durante a Renascença. É o período de transição entre
a Idade Média e a Idade Moderna.
Este período marca o nascimento de uma nova classe
social – burguesia- que enriqueceu com as atividades comerciais, não
considerando a riqueza como a posse da terra, base do sistema feudal, mas media
a riqueza pelo acúmulo de capital.
Os burgueses assumem seu potencial financeiro expressando
seu poder econômico através de vestimentas, acessórios luxuosos, e o padrão
adotado nas residências dos aristocratas, como forma de não reconhecer a
superioridade deles e sim, se igualar.
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| Giovanni Guglielmo e Ana Luísa de Medici- 1708 Burgueses de Florença. Via | Wikipédia |
A moda nasce então de uma competição entre a burguesia e a aristocracia, baseada no princípio da imitação. Quando as classes superiores adotavam um novo estilo este era copiado pelas classes inferiores, levando as classes superiores a adotar um novo estilo para se diferenciar; e era novamente copiado em um movimento constante. O início da moda, portanto está associado às elites e a grande maioria da população, no início, não foi afetada por estas mudanças.
"A moda nasceu nas cidades economicamente ricas, onde os comerciantes e os banqueiros rivalizavam com os consumos da nobreza." (Baldini, 2005, p. 36)
Se no início a moda ficou concentrada nas elites,
no século XVII o fenômeno da imitação alcança as classes mais baixas. No
reinado de Luís XIV (1643-1715), a indústria da moda tornou-se a principal
atividade econômica da França, com Jean-Baptiste Colbert, Inspetor Geral das
Finanças declarando que "a moda é para a França o que as minas de ouro do
Peru são para a Espanha". (Godart, 2010, p. 39).
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| Luís XIV |Rei de França e Navarra | Via: Meister Drucke. |
O efeito "trickle down"
A "monarquia absoluta" de Luís XIV fez
nascer uma centralização nas tendências das indumentárias na Europa. O que a
corte de Versalhes usava sob a determinação do "Rei Sol", era
inicialmente imitado pelos burgueses e por classes intermediárias, em um
movimento decrescente conhecido como "trickle
down effect" ou efeito gotejamento. É a moda que nasce nas classes
superiores e desce progressivamente para as classes mais baixas, de forma
vertical.
| Moda Burguesa | Gravura de N. Guérard 1690 Via | Gallica |
A imitação acontece como uma espécie de reverência em relação à pessoa que se imita, ou seja, do desejo de se afirmar como ela. Uma reflexão mais profunda está em Baldini (2005, p.65), ao citar um comentário de Gabriel Trade, escrito em 1890 e diz que "as classes ou pessoas que estamos mais inclinadas a imitar, são aquelas a que obedecemos mais facilmente." Acrescentando que "as massas tiveram sempre uma certa tendência para imitar o rei, a corte, as classes altas, na medida em que aceitavam seu domínio". Para ele, "em todas as épocas, as classes dominantes foram ou começaram por ser as classes-modelo".
Foi o que ocorreu
no reinado de Luís XIV, quando ele mesmo criou suas modas e divulgava para que
o estilo da corte de Versalhes predominasse na França e na Europa, demonstrando
que seu país era a maior potência naquele momento.
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| Condessa de Mailly - 1698. Via: Wikimedia |
A divulgação das tendências na Moda Aristocrática
Boneca Pandora
Uma forma criada para a difusão das tendências, dos
estilos e modelos parisienses foram as bonecas Pandora. Estes pequenos
manequins usando trajes detalhados e meticulosamente construídos eram feitos
para os alfaiates copiarem os modelos; mostravam as sedas estampadas, os bordados e
os elaborados penteados em uso.
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| Boneca Pandora. Via | Victoria & Albert Museum |
Essas bonecas circulavam pela Europa desde o século XVII, alcançando o auge da popularidade no século XVIII. Eram confeccionadas por costureiras francesas que criavam os vestidos com requinte de perfeição nos detalhes e em seguida eram enviadas para a Inglaterra, Alemanha, Itália e Espanha difundindo o estilo francês.
A maioria das bonecas Pandora possuía suas cabeças
e corpos de madeira articulada, enquanto outras tinham membros de cera ou
linho. Seus rostos eram pintados e as bonecas mais caras tinham olhos de vidro.
Algumas tinham cabelos pintados ou perucas realistas feitas de linho ou lã.
Divulgar penteados novos e detalhados era tão importante quanto exibir roupas
novas.
Rose Bertin, estilista de Maria Antonieta, enviava bonecas Pandora de madeira para a Áustria para mostrar a moda francesa à família da rainha que era austríaca. Em sua boutique parisiense "Le Grand Mogul", Bertin exibia em suas grandes vitrines as Pandoras em tamanho real da rainha atraindo compradores e consolidando a imagem de Maria Antonieta como a maior referência de moda da Europa no século XVIII.
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| Boneca Pandora. Via | Pinterest |
Além de exposição de estilos de moda, as bonecas em tamanho real serviam também para um propósito prático. Roupas feitas para uma boneca em tamanho real podiam ser vestidas pela costureira e ajudar com o processo dos ajustes. Apesar de sua utilidade, as bonecas Pandora caíram em desuso nas últimas décadas do século XVIII.
Imagens de Moda
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| Imagem de Moda (Fashion Plates) Via | MFA Boston |
As imagens de moda impressas desempenharam um importante papel durante o período barroco, na forma de gravuras individuais ou séries, e mais tarde nas primeiras revistas de moda. Luís XIV não só promoveu a fabricação de artigos de luxo, como também permitiu que fossem divulgados internacionalmente com gravuras das últimas tendências.
Com seu patrocínio, a imprensa de moda francesa floresceu entre 1672 e 1710.
Centenas de imagens de moda foram impressas em formato semelhante ao de um retrato,
feitas com tinta preta em papel branco e uma borda simples. Depois de impressas
elas eram coloridas à mão e vendidas aos ricos por assinatura, em séries de
conjuntos chamados "Chaiers de Mode" – Cadernos de Moda- servindo de
inspiração para costureiras ("marchandes de mode"), responsáveis pelos enfeites dos vestidos.
Revistas de moda
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| "Mercure Galant". Via| Museu Nacional Suíço |
Nesta época surgiram também as primeiras revistas
de moda como "Mercure Galant" (lançadas em 1678) disseminando o estilo
da corte para a classe média, por possuírem preços acessíveis e melhor
qualidade de impressão. Tornam-se populares rapidamente e as costureiras já não
precisariam esperar por longo tempo para conhecer as novidades da corte através
das Pandoras ou dos "Chaiers de Mode", ambos de custo elevado.
A publicação do "Mercure Galant" era
mensal e possuía páginas com ilustrações de moda, acompanhadas de um texto
descritivo informando aos alfaiates, comerciantes e aos leitores as últimas
tendências da moda na corte. As gravuras eram feitas com base em desenhos de
Jean Bérain, estilista de Luís XIV a partir de 1674, responsável por definir
seu estilo.
As cortesãs e a moda dos penteados
Não apenas os modelos de roupas determinavam o que
era moda na corte francesa, os penteados também. E as responsáveis pelos
lançamentos eram as "favoritas" do Rei. Luís XIV tinha várias
amantes, mas tinha também a "especial" que desfrutava dos luxos da
corte, frequentava os ambientes públicos, recebia títulos de nobreza e com
isto, lançavam suas modas dos penteados que eram copiados.
Duas merecem destaque: Marie Angelique de
Scoraille, Duquesa de Fontanges e Françoise d’Aubigné, Marquesa de Maintenon,
que mais tarde se casaria secretamente com Luís XIV.
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| Duquesa de Fontagnes. Criadora do penteado Fontanges. Via | Wikimedia |
O penteado à la Fontange, com cachos finos adornados com rendas e fitas, foi criado por acaso. Uma versão bastante conhecida é que o penteado surgiu durante uma caçada em que Luís XIV estava acompanhado por Madame Fontange; quando seu penteado se desfez e ela tirou uma das suas jarreteiras (ligas que prendiam as meias) ornada com pedras preciosas, levantou os cabelos e prendeu com este "acessório". Agradou ao Rei e a moda foi lançada. No dia seguinte, todas as damas da corte exibiam cabelos amarrados com fitas com o laço para frente.
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| Madame de Maintenon usando o penteado da moda século XVII Via| Miester Druke |
Da Marquesa de Maintenon surgiu outro penteado que levava seu nome: à la Maintenon. O penteado tinha os cabelos divididos ao meio por uma risca, levantados e dispostos em caracóis e foi moda por muito tempo no século XVII.
Mas não foi somente na corte de Luís XIV que as
cortesãs lançavam moda que se espalhavam pelas cidades da França e pela Europa.
Seu sucessor Luís XV também possuía amantes se tornaram influentes na corte, lançando modas.
Duas ficaram famosas: Jeanne-Antoinette Poisson,
Marquesa de Pompadour, uma das figuras mais emblemáticas do Século XVIII, e sua
substituta Jeanne Gomard de Vaubernier, Condessa Du Barry, responsáveis for
criar estilos marcantes que se tornaram moda.
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| Madame de Pompadour 1759. Via | Wikimedia |
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| Condessa du Barry. Via | Wikimedia |
A influência de Maria Antonieta como lançadora e divulgadora de tendências é conhecida de todos. A "Rainha da Moda" era adepta de um estilo extravagante, com volumes exagerados nas saias, graças ao uso dos panniers, mas se notabilizou por algumas bizarrices que foram imitadas.
Muitas modas de Maria Antonieta nasceram dos
encontros com sua estilista Rose Bertin, entre elas, um enfeite de plumas
colocados na parte de trás da cabeça chamado "Quès aco" e o "pouf"
que foi usado pela primeira vez por Maria Antonieta na coroação do Rei Luís XVI
e desencadeou uma onda de imitação entre as nobres francesas que começaram a
usar os cabelos da mesma maneira. O penteado se tornaria popular em toda a
Europa na década de 1770, mas também foi alvo de muitas críticas que ironizavam
em caricaturas, as extravagâncias da rainha e suas seguidoras.
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| Maria Antonieta usando penteado "Pouf" 1775. Via | Wikipedia |
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| Princesa Charlote da Grã-Bretanha usando penteado "Pouf". Via | Wikimedia |
Luís XIV lançou outras modas durante seu longo reinado que eram produzidas com materiais exclusivamente fabricados na França.
Foram criadas corporações de artesãos para atender as demandas, proibidas as
importações de produtos de moda e facilitadas as exportações. Assim, a França
consolidou sua posição de maior potência da Europa e Paris e Versalhes as
capitais da moda.
E por hoje é isso. Esperamos que tenha gostado do nosso conteúdo.
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CRÉDITOA
Baldini, Massimo. A invenção da moda. 2005. Edições 70,Ltda.
Godart, Frédreric. Sociologia da Moda. São Paulo: Editora Senac, 2010
Lipovetsky, Giles. O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1987


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