A BURGUESIA E A MODA NO RENASCIMENTO: ENTRE A CRIAÇÃO E A IMITAÇÃO

8.4.26 |


<img src="a-burguesia-e-a-origem-da-moda.png" alt=Retrato de Bianca Sforza, burguesa de Milão"/>

A origem da moda apontada por vários autores está ligada a luta entre as classes altas com um princípio baseado na distinção social. Uma luta que acontece entre a burguesia e a aristocracia durante o período do Renascimento quando a burguesia enriquece e imita os estilos criados pelas cortes que são modificados como forma de simbolizar o status de classe dominante. Hoje vamos falar sobre a origem da burguesia, como enriqueceu e sua importância para o sistema da moda. Interessado no tema? Então fica por aqui e conheça mais sobre a história da moda.


A ORIGEM DA BURGUESIA


*conteúdo 100% produzido por humano

Desde fins do século XI, sobretudo a partir do século XII, ocorreu na Europa Ocidental o Renascimento Comercial e Urbano. As invasões dos povos bárbaros, que arruinaram as cidades e dificultaram as atividades comerciais, foram paralisadas. A Igreja e as Monarquias se empenharam para restabelecer a ordem nos reinos contribuindo para uma relativa segurança, criando condições favoráveis às transações mercantis realizadas pela burguesia.

 

Naquele período, além dos castelos e aldeias rurais com sua população de nobres e camponeses, existiam na Europa Ocidental as cidades ou burgos, cujos habitantes eram chamados burgueses. Até certa época eram os servos os encarregados da manufatura dos objetos; com o aparecimento das cidades, a indústria passou a ser explorada pela população urbana, isto é pelos burgueses. Esta era a fonte da economia dos burgueses: a indústria e o comércio.

 

Como vimos, as atividades econômicas renasceram no século XI e as Cruzadas: recomeçaram a navegação mediterrânea e o comércio com as regiões orientais. As Cruzadas eram expedições militares cristãs, que, dos séculos XI ao XIII, se dirigiam ao Oriente, a pretexto de libertar a Terra Santa do domínio mulçumano que impediam o prosseguimento das peregrinações. Pretexto, pois como veremos, os interesses iam além dos religiosos.

 

Para os burgueses das cidades italianas era muito vantajoso que as Cruzadas utilizassem suas embarcações para atingirem as terras orientais, e com isto expandir as transações comerciais e aumentar seus lucros.

 

A Primeira Cruzada (1097) abriu o Mediterrâneo para a navegação mercantil aumentando as relações comerciais entre o Ocidente e o Oriente. O aumento da procura de produtos asiáticos (especiarias) criou novos mercados de consumo em toda a Europa Ocidental. Mas não eram apenas as especiarias que atraíam o consumo; a Europa passou a conhecer produtos refinados como a seda, tapetes, móveis, porcelanas e outros artigos de luxo. Assim, a burguesia encontrou o caminho para o enriquecimento com o comércio destes produtos.

 

Veneza, com sua situação privilegiada, estabeleceu forte monopólio, estreitando suas relações com os mulçumanos; com isto obtinha os produtos vindos do Extremo Oriente ("Índias") revendendo a preços altos na Europa. E os burgueses ficavam cada vez mais ricos, fundando bancos e bolsas de comércio, além de emprestar dinheiro a juros. Existiam famílias riquíssimas na Itália como os Médicis de Florença e os Sforzas de Milão, residindo em Castelos com todo o aparato do luxo que a condição financeira oferecia.


<img src="a-burguesia-e-a-origem-da-moda-castelo-sforza-milao.png" alt="Imagem do Castelo Sforza, burgueses de Milão"/>
Castelo Sforza - Milão. Via Headout


Palácio Pitti. Família Médici- Florença. Via | Tripadivsor


A tomada de Constantinopla pelos turcos em 1453 modificou o panorama econômico. O comércio não foi impedido, mas novas taxas começaram a ser cobradas encarecendo ainda mais o preço de revenda das especiarias.

 

Além disso, os burgueses encontravam dificuldades em suas transações. O feudalismo possuía muitas moedas de acordo com a região, cobravam pedágios, e muitas leis baseadas em costumes locais regulavam o consumo de alguns produtos. Isto fez com que a burguesia se sentisse tolhida em suas ambições; desejando criar um mercado nacional livre destes entraves, decide apoiar a Realeza contra a poderosa nobreza feudal, possuidora de privilégios seculares. Monarquia e burguesia tinham um interesse comum: o dinheiro.

 

A solução seria encontrar um caminho para chegar às Índias que evitasse o Mediterrâneo. E a burguesia financiou estes empreendimentos.  Afinal era a classe mais interessada já que tinha suas bases materiais fundamentadas na riqueza móvel, ou seja, no dinheiro. Enquanto os Reis eram os patrocinadores, a burguesia eram os financiadores. Com isto deu o início às Grandes Navegações e descoberta de novas terras e novas fontes de riqueza.

 

O sucesso destes empreendimentos, deslocando o eixo econômico do Mediterrâneo para o Atlântico, quebrou o monopólio das cidades italianas do comércio oriental, apesar de continuar com o tráfico com o Extremo Oriente, foram superadas em volume, valor e variedade pelo comércio do Atlântico. Lisboa se transformou em um centro revendedor de especiarias e Sevilha em eixo do comércio dos metais hispano-americanos: ouro e prata.

 

Agora a riqueza de um país não estava apoiada nas terras que possuía e sim, no dinheiro. Esta Revolução Comercial, que valorizava os bens móveis, contribuiu para a ascensão social e econômica da burguesia que assistia a crise do sistema feudal apoiado na riqueza fundiária, e o enfraquecimento gradativo de sua nobreza.

 

Os ricos burgueses já haviam adotado os costumes da Monarquia baseados no luxo e na ostentação. As residências e o vestuário ornamentados com o maior requinte disponível eram símbolos do poder econômico. Mas existiam as Leis Suntuárias que possuíam regulamentações que enquadravam e limitavam o uso das vestimentas, determinando até as cores e os tecidos que cada categoria e podia usar além do consumo de alimentos e bebidas de acordo com a classe social e princípios religiosos. Era uma forma de manter a distinção social entre a Aristocracia e as demais classes. Mesmo com toda a riqueza, a burguesia ainda tinha restrições, mas não por muito tempo.


Lady Simonetta Vespucci. Sandro Botticelli. Via | Wikipédia


No final da Idade Média e início da Idade Moderna, surgiu o Humanismo, trazendo para a Europa medieval, um novo pensamento baseado nos escritos helênicos. Os estudiosos que moravam em Bizâncio migraram para a Itália devido à pressão dos turcos, levando na bagagem documentos preservados nas bibliotecas e o estudo dos filósofos gregos tornou-se o ponto de partida para o Renascimento.

 

Quem estava por trás disto? A burguesia, claro! Enriquecida com o comércio, procurou se firmar na sociedade, onde os valores imperantes não eram os seus, mas sim os projetados pela Igreja e pela nobreza feudal. Para contestar e difundir seus valores, mercadores e banqueiros promoveram as Artes, Letras e Ciências, difundindo desta forma o pensamento moderno, em que tudo o que era feudal era considerado velho e a cultura abriria novos caminhos para a sociedade. 


A RIQUEZA DOS BURGUESES E O MECENATO


A família Médici, burgueses fundadores do Banco Medici, dominou Florença durante os séculos XV e XVIII depois expandindo seu poder por toda a região da Toscana. Cosmo de Médici e Lorenzo de' Médici ("O Magnifíco")Foram fundamentais no financiamento das artes no Renascimento, apoiando artistas como Michelangelo e Sandro Botticelli.


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Lorenzo de Médici. Via | Trecanni

O Nascimento da Vênus. Sandro Botticelli. Via | Wikipédia

A família Sforza governou Milão durante o Renascimento (1450–1535), transformando a cidade em um centro cultural e artístico. Francesco Sforza assumiu o poder em 1450, construindo o imponente Castelo Sofrza enquanto Ludovico "il Moro" foi um notável mecenas, trazendo Leonardo da Vinci para decorar a Sala delle Asse no castelo onde pintou a Última Ceia.


Sala Delle Asse com a pintura "A Última Ceia"- Castelo Sforza. Via | Tripadivisor

A BURGUESIA, AS LEIS SUNTUÁRIAS E A TOMADA DO PODER NA FRANÇA

 

A burguesia encontraria problemas na França, a grande protagonista da moda no século XVII no reinado de Luís XIV, que transformou a moda em sua principal fonte de economia. Mesmo sendo a classe emergente, dona do capital que sustentava o Antigo Regime, fornecendo os recursos humanos e financeiros, sua posição político-jurídica era limitada pela divisão da sociedade em Ordens ou Estados: Clero, Nobreza e Povo. Enquadrada no Terceiro Estado, sua influência só se fazia sentir na medida em que era importante economicamente.

 

Mas mudanças no comportamento dos burgueses ricos já eram visíveis desde o final do século XVII quando começaram a transgredir cada vez mais as Leis Suntuárias, apropriando-se de peças do vestuário aristocrático. Estas Leis já não enquadravam costumes, mas o vestuário como uma forma de reprimir a burguesia. Elas representavam a luta entre estas duas classes: a aristocracia que desejava manter-se distante não permitindo que seu vestuário fosse imitado por classes inferiores modificava seus estilos cada vez que os burgueses se apropriavam deles. Isto deu origem ao sistema da moda.

 

Não apenas no vestuário os burgueses contestavam sua posição. Eles foram mais além. Apoiando movimentos como o Iluminismo, com temas que giravam em torno da Liberdade, do Progresso e do Homem, a burguesia chega ao final do século XVIII disposta a conquistar seus direitos políticos com a derrubada do Antigo Regime que finalmente aconteceria durante o período da Revolução Francesa (1789-1799) com o lema Igualdade, Fraternidade e Liberdade, decretando inclusive o fim das Leis Suntuárias que permitia a todos os cidadãos vestirem-se livremente de acordo com seus gostos.

 

A Revolução Francesa encerra a Idade Moderna dando início à Idade Contemporânea abrindo novos caminhos para a sociedade e novas formas de enriquecimento. Com a derrubada da Monarquia, as fontes de referências de moda passam para as mãos das classes abastadas, que continuariam a ser por muito tempo, imitadas pelas classes inferiores. E assim, segue a moda...

 

 E por hoje é isso. 

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CRÉDITOS

AQUINO. Rubens [et al.] . História das sociedades modernas às sociedades atuais.  Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1988.

Becker, Idel. Pequena História da Civilização Ocidental. Companhia Editora Nacional, 1971.

BALDINI, Massimo. A Invenção da Moda. As teorias, os estilistas, a história. Edições 70, Ltda. 2005





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