A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL E OS AVANÇOS NA INDÚSTRIA TÊXTIL
A Revolução Industrial teve sua origem na
Inglaterra em 1750, quando as primeiras máquinas produziram maior quantidade de
produtos em menor tempo do que quando produzidos artesanalmente em pequenas
fábricas domésticas. O setor têxtil foi um dos primeiros a perceber a
necessidade da mecanização.
O aumento de consumo de tecidos encorajou os
fabricantes a criar a fiandeira mecânica e os teares movidos a vapor aumentando
a produção. O resultado foi o aumento da oferta de tecidos com custo mais
baixo. Este modelo de fabricação não ficou restrito à Inglaterra. Outros países
também fizeram esta migração do fazer artesanal para o industrial. Polos
têxteis surgiram como Lyon na França que respondia pela fabricação da seda de
alta qualidade, e a região da Catalunha na Espanha.
A MODA AO ALCANCE DE TODOS
Com o aumento da oferta de tecidos, a invenção da
máquina de costura industrial deu início à produção de roupas em larga escala.
As tendências de moda já chegavam à todas as classes através das primeiras
publicações de revistas especializadas e o desejo do parecer e do pertencimento
inerentes ao próprio sistema da moda, motivou ainda mais a produção do vestuário
e torná-lo mais acessível. A máquina de costura doméstica possibilitou às
mulheres fabricarem suas roupas ou seguindo o que era ditado como moda, ou
criando as suas próprias de acordo com seu gosto pessoal.
![]() |
| Máquina de Costura | Publicidade. Via | Public Domain Pictures |
INÍCIO DA INDÚSTRIA DO VESTUÁRIO NA FRANÇA
A França desde o século XVII se consolidara como
farol da moda na Europa, usando as "bonecas Pandora" como
divulgadoras do que era usado em Paris, que se transformou no principal polo
atrativo de tendências. A sua vocação para o luxo, se refletiu na qualidade da
produção de artigos de moda. Sendo a moda a principal fonte de riqueza da
França, quando todas as classes já estavam rendidas ao hábito de acompanhar as
tendências dos aristocratas, era preciso democratizar e tornar a moda acessível
a todas as classes. Assim, em Paris teve início a indústria do vestuário. A
primeira loja especializada neste segmento foi fundada por Pierre Parrissot em
1824, revolucionando os hábitos de consumo. A "La Belle Jardinière" foi
criada para contemplar a evolução da clientela formada pela burguesia do século
XIX.
![]() |
| La Belle Jardinière. Via | Meister Drucke |
O diferencial da La Belle Jardinière foi a introdução de roupas prontas em uma época
em que a alfaiataria sob medida era a norma; com isso iniciou a produção em
larga escala de peças disponíveis em todos os tamanhos e cores. A ideia foi
inspirada na indústria de vestuário pronto de Londres, Liverpool e Dublin, na
Inglaterra.
Em seguida, a La
Belle Jardinière diversificou sua produção que inicialmente era restrita a casacos
e jaquetas formais usados por servidores públicos, passando a oferecer ternos
masculinos, vestidos femininos para adultos e jovens, casacos, peles, chapéus
etc. para atender a todas as necessidades do dia a dia. A La Belle Jardinière foi também a primeira loja a criar duas
coleções de roupas, uma para o inverno e outra para o verão. Com sucesso deste
modelo de negócio foram abertas filiais em Lyon, Marselha, Angers e Nantes.
LOJAS DE DEPARTAMENTO ACELERAM O CONSUMO
A partir da década de 1850 as lojas de departamento surgiram
nas principais capitais da Europa, lançando as bases do comércio moderno e da
nova sociedade de consumo, que teve reflexos na expansão da economia. Na França,
este modelo de negócio está diretamente ligado às políticas econômicas
implementadas por Napoleão III para modernizar o país.
O período não podia ser mais favorável: a ascensão da
burguesia que se consolidaria como sua principal clientela além das atividades
de lazer que se modernizavam; o ato de fazer compras tornou-se comparável ao
teatro, aos bailes, os cafés ou concertos, ou seja, um novo passatempo burguês.
O impacto das lojas de departamentos, que se transformaram em novos templos da modernidade e do consumo, inspirou o escritor Émile Zola em seu romance "Au Bonheur des Dames", (O Paraíso das Damas), tendo como pano de fundo uma loja imaginária com o mesmo nome, retratando como uma fotografia a efervescência de Paris, a cidade das luzes em todo seu esplendor em meados do século XIX.
![]() |
| "O Paraíso das Damas" Émile Zola. Via | Wikimedia |
Esses estabelecimentos se baseavam na redução dos custos de produção permitindo a oferta com preços imbatíveis. Este modelo de negócio favoreceu o acesso de grande parte da população, tanto francesa como estrangeira a bens antes reservado à elite. A Grand Magasins du Louvre, inaugurada em 1855, se posicionou como influenciadora de moda, quando afirmava não produzir cópias, mas criação de modelos exclusivos. Uma década depois, foram inauguradas a Printemps, e em 1869 e a La Samaritaine seguindo este mesmo conceito.
![]() |
| Grands Magasins du Louvre.- 1887. Via | Meistre Druck |
![]() |
| Catálogo Grands Magasins du Louvre. Via | Dikitats |
LE BON MARCHÉ: UM NOVO MODELO DE VENDAS
![]() |
| Le Bon Marché. Via | Passerelles |
Na Le Bon Marché, inaugurada em 1852 partindo de um desejo
de Aristide Boucicaut de ter um modelo de "lojas dentro da loja", ou
seja, departamentos exclusivos para cada segmento foi projetada para ser a
pioneira no uso das vitrines como estratégia de vendas. A tecnologia já
permitia a fabricação de lâminas de vidro em grandes dimensões e nas grandes
aberturas na fachada eram exibidos artigos por categoria, de forma organizada,
atraindo a atenção dos passantes que eram motivados a entrar e encontrar os
produtos exibidos.
No interior da loja outras inovações aconteceram entre elas,
a exibição dos produtos em expositores no salão e não mais apenas atrás dos
balcões. Os produtos tinham seus preços fixados, e estavam ao alcance dos
clientes para serem tocados, examinados e escolhidos livremente. Espaços de
convivência foram criados como o café e o espaço para leitura de jornal, onde
os homens se reuniam enquanto as mulheres circulavam e faziam as compras.
![]() |
| Le Bon Marché - Sala de leitura. Via | Passarelles |
A Le Bon Marché, como estratégia de crescimento, diversificou sua oferta de produtos implementando a venda por correspondência, criando catálogos ricamente ilustrados, visando o mercado interno e o internacional. No início os catálogos eram publicados anualmente, impressos em grandes quantidades, mas rapidamente se tornaram sazonais, ampliando a oferta de todos os tipos de produtos como artigos para o lar, prataria, porcelana, iluminação, estofados, decoração, e artigos de viagem. Desta forma os clientes podiam acompanhar a evolução dos estilos de vida e gostos da burguesia em termos de moda, decoração, artigos para o lar e atividades de lazer.
As mudanças no consumo de moda neste período, deveu-se
também a imprensa especializada que teve um crescimento vertiginoso, com um
aumento do número de publicações: 113 títulos eram publicados em Paris no final
do século XIX. Essas revistas traziam ilustrações coloridas reproduzindo modelos,
cujas legendas mencionavam os nomes de fornecedores.
![]() |
| Revista de Moda séc. XIX. Via | Pinterest |
Impulsionados pelo crescimento da sociedade de consumo, e o sucesso deste novo formato de loja, nos Estados Unidos foram inauguradas a Macy's (1858), a Bloomindagle's (1872) e a Sears (1886) em Nova York, Marshall Field's em Chicago (1865).
A ALTA COSTURA E O PODER DA "GRIFFE"
![]() |
| Charles F. Worth. Via | Correspondence Magazine |
![]() |
| Maison Charles F. Worth. Via | Vision Times |
Para preservar suas criações evitando cópias, Worth fundou em 1868 a Federação dos Alfaiates Parisienses, surgindo assim o conceito de Alta Costura. Desta Federação nasceu a Chambre Syndicale de La Couture presente até hoje como reguladora do que pode ser considerada Alta Costura.
ALTA COSTURA X LOJAS DE DEPARTAMENTO
A influência do mundo da Alta-Costura,
inicialmente chamada de Couture, nas
grandes lojas de departamento ficou evidente quando as roupas e acessórios
passaram a ter o nome da loja. Este conceito iniciou com a Printemps inaugurada em 1865, batizando os modelos com nomes
sugestivos e com estes nomes eram apresentados nas revistas de moda. Outra
estratégia para elevar o padrão da loja e atrair cada vez mais uma clientela
abastada, era o recrutamento de funcionários das casas de Alta Costura, para
com sua experiência, promover um atendimento mais refinado.
As Galeries
Lafayette, que tinham como objetivo se posicionar como principal centro de
referência no cenário da moda parisiense copiava as criações de costureiros e
casas de Alta-Costura; beneficiados pela agilidade de produção em prazos muito
curtos em suas próprias oficinas, os modelos eram imediatamente colocados à
venda a um preço competitivo.
E assim, ao longo dos anos as estratégias para
impulsionar o consumo de moda iam se multiplicando, apoiado por métodos modernos
de publicidade como os cartazes em tamanhos grandes e coloridos, a ambientação
das vitrines cada vez mais criativas, sobretudo pela fabricação dos primeiros
manequins de cera, a urbanização que interligava bairros distantes aos centros
de comércio das capitais, as Exposições Universais que apresentavam produtos de
vários países e que, em Paris a moda era destaque, tudo contribuía para
confirma-la como um segmento rentável, que movimentava a economia e trazia
grandes lucros.
A moda seguiu este ritmo que conferia às classes
altas o poder de lançamento de tendências, e que as classes inferiores,
reconhecendo esta superioridade não hesitavam em copiar. Este sistema iniciado
nos primórdios da moda em meados da Idade Média, só seria alterado no
Pós-Guerra, que, com a escassez de produtos de luxo e do dinheiro; as criações
das casas de moda se tornaram mais acessíveis com a introdução do prêt-a-porter (pronto para usar), adotando
os critérios da produção de massa, mas ainda restrito às classes altas, pelo
poder que a griffe ainda possuía.
Mas não tardou para que marcas populares se firmassem
como lançadoras de tendências encontrando adotantes dispostos a desenvolver uma
identidade própria, com estilos próprios, sem se escravizar pelas criações das
assinaturas valiosas.
Lipovetsky, Gilles. O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas / Gilles Lipovetsky: tradução Maria Lucia machado. - São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
https://gallica.bnf.fr/accueil/fr/html/la-belle-jardiniere-une-petite-graine-pour-un-grand-magasin
https://madparis.fr/Exposition-La-naissance-des-grands-magasins



.jpeg)






