A origem de Elizabeth Keckley
Keckley nasceu na Virgínia em 1818 como filha ilegítima
de Agnes Hobbs e de seu senhor Armistead Burwell. Como sua mãe era escrava, ela
também nasceu escravizada. Agnes costurava para a família e ensinou essa
habilidade à filha, além de como ler e escrever. Vivendo na plantação,
Elizabeth presenciou os horrores da escravidão.
Elizabeth foi separada da mãe aos 14 anos quando
seus senhores a enviaram para trabalhar para o filho na Carolina do Norte. Depois,
a entregaram para trabalhar para um comerciante local, que a agrediu
repetidamente durante os quatro anos seguintes. Como fruto dos abusos, em 1839,
ela deu à luz um filho dele, a quem chamou de George, em homenagem ao seu
suposto pai, George Hobbs.
Dez anos sobrevivendo a esses horrores, Elizabeth
e seu filho George retornaram à Virgínia, quando Armistead Burwell seu pai
biológico e senhor, faleceu. O genro de Burwell recebeu como herança Elizabeth
e seu filho; a família mudou-se para St. Louis em 1847 e levaram Agnes, Elizabeth
e o pequeno George consigo.
O início da carreira, casamento e liberdade
Enquanto morava em St. Louis, Elizabeth tornou-se
uma costureira talentosa. Seu salário constituía uma importante fonte de renda
para seus donos, que já estavam em condições financeiras difíceis e cada vez
mais dependiam dela para garantir seu sustento.
Em 1850, ela conheceu James Keckly, um
afro-americano livre, e os dois iniciaram um relacionamento; mas ela se recusou
a casar com ele até que ela e seu filho fossem libertados. Pediu sua liberdade
a seu senhor mas foi recusada. Mais tarde, foi estabelecido um preço por ela e
seu filho. Só então com essa esperança de independência, Elizabeth casou-se com
James Keckley em 1852.
Durante três anos, Keckley trabalhou arduamente
para arrecadar o dinheiro necessário para garantir sua liberdade, e sempre
enfrentava novas exigências de seus senhores, que dificultavam a realização de
seu propósito. As amizades que Keckley havia feito em St. Louis foram
decisivas. Uma família solidária emprestou-lhe o dinheiro e finalmente em 1855
ela e seu filho se tornariam livres.
Keckley permaneceu em St. Louis continuando seu
trabalho como costureira e tornou-se uma estilista de sucesso. Em 1860, quitou
os empréstimos e se separou do marido devido ao seu abuso de álcool.
A mudança para Washington
Com essa nova independência, Elizabeth Keckley
mudou-se para Washington D.C. Na década de 1860 em Washington, uma comunidade
de costureiras negras estava surgindo e prosperando. Keckley estava entre elas
e construiu sua reputação através da ética de trabalho exemplar e por criar
designs sofisticados que demonstravam uma elegância refinada, que atraiu as
esposas da elite de política.
Seu trabalho logo chamou a atenção da futura
primeira-dama, Mary Lincoln, esposa do presidente Abraham Lincoln, para quem
criou o vestido usado na posse do marido. O vestido era em veludo roxo com
corpetes diurnos e noturnos e tinha como detalhe debruns em cetim branco na
parte de trás. Keckley se tornou a
principal costureira e confidente pessoal de Mary Lincoln.
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| Vestido de Mary Lincoln para a posse de Abraham Lincoln. Via | https://tinyurl.com/ma48bdz9 |
A nova primeira dama era nascida em uma família numerosa
e rica de escravos do Kentucky; ela possuía hábitos extravagantes e logo que
chegou à Casa Branca em 1861, promoveu reformas na decoração dos cômodos
públicos e privados, e seus exageros também incluíam joias e vestidos. Na primavera
e no verão Keckley criou nada menos do que 15 vestidos para ela.
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| Vestido xadrez Elizabeth Kekcley para Mary Lincoln Via | https://tinyurl.com/4nptnxj6 |
Ajuda aos escravos
O sucesso de Elizabeth Keckley e seus contatos nos
meios políticos também ajudaram muitas pessoas emancipadas que entraram em
Washington, D.C. em busca de sua liberdade. Ela fundou a Contraband Relief
Association (Associação de Auxílio a Escravos Contrabandistas), para ajudar os
diversos acampamentos de pessoas escravizadas fugitivas – "contrabandistas"-
que estavam espalhados por Washington.
Abraham e Mary Lincoln a apoiaram nesses esforços
doando dinheiro para a organização. Ela também se encontrou com muitos
abolicionistas importantes, como Frederick Douglass, um negro conhecido como
"o pai dos direitos civis", que teve importante influência na luta
pelo fim da escravidão.
O rompimento com Mary Lincoln
Nos dois anos seguintes após a morte de Abraham
Lincoln, em 1865, Elizabeth Keckley continuou sendo uma figura importante na
vida de Mary Lincoln. Ela acompanhou Mary até Illinois para o sepultamento do
Presidente, ajudando a confortá-la durante esse período difícil. Em 1867,
Elizabeth Keckly retornou a Washington, D.C., quando Mary Lincoln novamente lhe
pediu ajuda em Nova York, onde morava.
Mary acumulou dívidas consideráveis após a morte
do marido e pediu à Keckley que a ajudasse a levantar algum dinheiro vendendo
alguns de seus pertences entre eles, seus vestidos. Keckley a auxiliou nesse
esforço, mas ele terminou em escândalo. As críticas foram severas e até
irônicas, por expor a atual condição financeira de Mary.
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| Mary Lincoln- Vestido Morango 1861 | Design Elizabeth Keckley Via | https://tinyurl.com/mw5tx4yr |
Autobiografia e intimidade da Casa Branca revelada
Em 1868, Elizabeth Keckley decidiu escrever sobre
sua vida e sua versão dos fatos em uma autobiografia. Ela a intitulou
" Nos Bastidores, ou, Trinta Anos como Escrava e Quatro Anos na
Casa Branca" . Nesta autobiografia, Keckley relatou sua vida como
escrava e os anos que passou na Casa Branca.
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| Autobiografia de Elizabeth Keckley - 1868. Via | https://tinyurl.com/4pszbhxc |
As críticas foram imediatas pelo livro entrar em detalhes íntimos de sua amizade com Mary Lincoln que também expressou sua raiva em relação ao livro, pois ele incluía o escândalo da venda de vestidos. No prefácio do livro ela explicou que estava tentando mudar a imagem da Mary, mas sem sucesso. As duas nunca mais se falaram.
O filho Robert Lincoln, envergonhado pelo
escândalo, usou sua influência para impedir a publicação do livro, e poucas
cópias foram vendidas. O escândalo do livro prejudicou a reputação de Elizabeth
Keckley, e ela perdeu muitos clientes.
Em nossas pesquisas encontramos informações de que Elizabeth Keckley foi contratada por Mary Lincoln como sua costureira particular. Alguns se referem a ela como uma servente da Casa Branca. Depois que Abraham Lincoln morreu, Mary também tinha dívidas com Keckley; não foram pagas e esta seria a suposta razão da publicação de sua autobiografia, como forma de vingança.
O fim de uma jornada
Elizabeth Keckley deixou Washington, mas continuou
a trabalhar como costureira por décadas. Em 1892, aceitou um cargo de
professora na Universidade Wilberforce, em Ohio, como chefe do Departamento de
Costura e Artes Domésticas. Após sofrer um derrame no ano seguinte, renunciou
ao cargo e retornou a Washington, D.C. Passou seus últimos anos no Lar Nacional
para Mulheres e Crianças Negras Carentes, que ajudara a fundar anos
antes. Elizabeth Keckley faleceu em 26 de maio de 1907 e foi sepultada no
Cemitério Columbian Harmony, no Distrito de Columbia.
Apenas um número limitado de vestidos de Keckley sobreviveu. Seu trabalho é anterior ao uso de etiquetas com nome do autor, o que dificulta a identificação. Entre as peças que se presume terem sido criadas por ela estão o Vestido Morango de Mary Lincoln e um vestido listrado de 1863.
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| Vestido Listrado - Elizabeth Keckley para Mary Lincoln- 1863 Via | https://tinyurl.com/yc3v69mu |
Antes de morrer, ela concluiu uma colcha de
retalhos de tecidos de seda, sobras da confecção dos vestidos de Mary Lincoln.
A colcha é hoje um dos objetos mais populares do Museu da Universidade Estadual
de Kent, em Ohio.
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| Kilt por Elizabeth Keckley . Entre 1862 e 1880 Via | https://www.whitehousehistory.org/photos/photo-2-26 |
O legado de Elizabeth Keckley
O sucesso de Elizabeth Keckley no final do século
XIX não ocorreu apenas na moda, ela foi a primeira negra a publicar um livro e abriu
espaço para outros estilistas negros que se destacariam no cenário da moda no
século XX.
Apesar de toda a polêmica sobre a publicação de
sua autobiografia, livro oferece uma perspectiva única sobre a vida pessoal e
política dos Lincolns e relata as experiências dos afro-americanos durante a
escravidão e suas lutas por liberdade. A vida e a obra de Elizabeth Keckley são
exemplos de resiliência e força das mulheres afro-americanas em um período
crucial da história. Sua habilidade como costureira lhe proporcionou
independência financeira, e seu ativismo e suas memórias contribuíram para o
registro histórico de um período de grande adversidade.
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| Estátua de Elizabeth Keckley no Monumento das Mulheres da Virgínia Via | https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Elizabeth-Keckley.jpg |
E por hoje é isso.
Esperamos que tenha gostado de conhecer a historia de Elizabeth Keckley. É sempre muito inspirador, não acha?
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FONTES
https://fashionhistory.fitnyc.edu/1818-1907-elizabeth-keckley/
https://www.nps.gov/foth/learn/historyculture/elizabeth-keckly.htm
https://www.metmuseum.org/essays/ann-lowe







